sexta-feira, abril 02, 2010

ouvi dizer...

"Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História"


Soren Kierkegaard



em todas as ruas te encontro


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny in Pena Capital, 1957

limiar da maldade



"São conhecidos da física fenómenos que ocorrem apenas a magnitudes limiares, que de modo algum existem até determinado limiar codificado e conhecido da natureza ter sido ultrapassado... É evidente que a malvadez também tem o seu limiar. Sim, um ser humano hesita e oscila entre o bem e o mal toda a sua vida... Mas enquanto o limiar de maldade não for ultrapassado, a possibilidade de retorno mantém-se e o indivíduo mantém-se dentro dos limites da nossa esperança."



Martin Amis in Koba, o Terrível, 2002

terça-feira, novembro 10, 2009

ouvi dizer...

"Rara felicidade deste tempo, onde é permitido pensar o que se quiser e dizer o que se pensa."


Tácito

poema para iludir a vida


Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
o fim

e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.


Fernando Namora in "Mar de Sargaços",1940

domingo, outubro 18, 2009

eels - fresh feeling

You don't have a clue,
what it is like
to be next to you.

I'm here to tell you,
that it is good,
that it is true.

Birds singing a song,
old paint is peeling,
this is that fresh
that fresh feeling.
Words can't be that strong,
my heart is realing,
this is that fresh,
that fresh feeling.

Try, try to forget,
what's in the past,
tomorrow is here.

Love, orange sky above,
lighting your way
there's nothing to fear.

Birds singing a song,
old paint is peeling,
this is that fresh
that fresh feeling.
Words can't be that strong,
my heart is realing,
this is that fresh,
that fresh feeling.

Some people are good,
babe in the hood,
so pure and so free.

I'd make a safe bet,
you're gonna get,
whatever you need.

Birds singing a song,
old paint is peeling,
this is that fresh
that fresh feeling.
Words can't be that strong,
my heart is realing,
this is that fresh,
that fresh feeling.

That fresh feeling.
This is that fresh feeling.


music by E and Murder in Souljacker, 2001

ninguem sabe coisa alguma


"Porque nós não sabemos, pois não? Toda a gente sabe. O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que está subjacente á anarquia da sequência dos acontecimentos, às incertezas, às contrariedades, à desunião, às irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. «Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o inimigo da banalização da experiência, e o que se torna tão insuportável é a solenidade e a noção da autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum. O que nós sabemos é que, de um modo que não tem nada de lugar-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, não as sabemos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de coisas que não sabemos. E mais espantoso ainda é o que passa por saber."


Philip Roth in "A Mancha Humana", 2000