terça-feira, junho 17, 2008

vento do espírito



Senti passar um vento misterioso,
Num torvelinho cósmico e profundo.
E me levou nos braços; e ansioso
Eu fui; e vi o Espírito do Mundo.

Todas as cousas ermas, que irradiam
Como um nocturno olhar inconsciente,
Luz de lágrima extinta, não sentiam
A trágica rajada, que somente

Meu coração crispava! Ó vento aéreo!
Vento de Exaltação e Profecia!
Vento que sopra, em ondas de mistério,
E tanto me perturba e me extasia!

Estranho vento, em fúria, sem tocar
Na mais tenrinha flor! E assim agita
Todo o meu ser, em chamas, a exalar
Luz de Deus, luz de amor, luz infinita!

Vento que só encontras resistência
Numa invisível sombra... Um arvoredo,
Ou pedra bruta, é como vaga essência;
E, para ti, eu sou como um penedo.

E na minha alma aflita, ó doido vento,
Bates de noite; e um burburinho forte
A envolve, arrasta e leva, num momento;
E vai de vida em vida e morte em morte.

Vento que me levou, nem sei por onde;
Mas sei que fui; e, ao pé de mim, bem perto,
Vi, face a face, a névoa a arder, que esconde
O fantasma de Deus, sobre o deserto!

E vi também a luz indefinida
Que, nas trevas, se fez, esclarecendo
Meu coração, que voa, além da vida,
O seu peso de lágrimas perdendo.

E aquele grande vento transtornou
Minha existência calma; e dor antiga
Meu rude e frágil corpo trespassou,
Como a chuva uns andrajos de mendiga.

E fui num grande vento; e fui; e vi:
Vi a sombra de Deus. E alvoraçado,
Deitei-me àquela sombra, e, em mim, senti
A terra em flor e o céu todo estrelado.


Teixeira de Pascoaes in As Sombras, 1907

quarta-feira, maio 28, 2008

água morrente



Meus olhos apagados,
Vede a água a cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.


Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.



Camilo Pessanha in Clepsidra, 1920

sábado, março 22, 2008

Ó Virgens que passais, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!



António Nobre in Só, 1886

sábado, janeiro 26, 2008

julieta su & sida

Vento assobia na avenida
Mulheres de vidro, meias de vida

De noite e dia a mesma roupa

Droga és sempre pouca

Julieta olha por mim,

Su, tua voz é rouca

Já nasceste assim.

Machos castrados, gajas na tropa

Americanos bebem "Europa",

Vêem Lisboa sem camisa,


E, a malta é louca

São Romeus cardeais,

Su, mandante boca
Travestis oficiais .

Julieta Su & Sida

São perigosas, são comida,
Só se paga desta vez,


Julieta Su & Sida

São bilhete só de ida
Sobrevivem e vocês?


Rui Reininho, in Tudo o que voce queria ouvir, 1996

quinta-feira, dezembro 06, 2007

regresso ao lar

Ai, há quanto tempo que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há Trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida!...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tao desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas magoas no embaciado olhar!
Nunca ele sairá do meu ninho estreiti!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias de astros, gemas de luar...
Todos me roubaram, vê, pelo caminho!
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-me cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a morte, em breve, ma vier buscar!...


Guerra Junqueiro, Os Simples, 1892

quarta-feira, dezembro 05, 2007

os vencidos da vida...


[...] Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para tosquiar, embora atravesse o Chiado cabisbaixo de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublíme, um general invencível, um dominador de homens ( ou de mulheres, segundo as circunstâncias ), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho - ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação. [...]


Eça de Queirós, Notas Contemporâneas

domingo, novembro 25, 2007

ave-marias


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.


O céu parece-me baixo e de neblina,

O gás extravasado enoja-me, perturba;

E os edifícios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se duma cor monótona e londrina.


Batem os carros de aluguer, ao fundo,

Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista, exposições, paises:

Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.


Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;

Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos canais a que se atracam os botes.


E evoco, então, as crónicas navais:

Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas náus que eu não verei jamais!


E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra um tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.


Num trem de praça arengam dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.


Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas!


Descalças! nas descargas do carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro onde miam gatas,

E o peixe podre gera focos de infecção!


Cesário Verde in O Sentimento dum Ocidental